GGirlsBR Entrevista – Germana Viana (Quadrinista)

Entrevistamos Germana Viana, quadrinista, ilustradora, formada em artes plásticas, feminista e autora de Lizzie Bordello e Empoderadas. Lutadora, talentosa, que encara o mercado de quadrinhos, ainda hoje preconceituoso e limitadíssimo, diariamente com suas obras maravilhosas.

“A internet nos ajudou muito, nos ajudou a nos enxergarmos, agora não andamos sozinhas, andamos em bando e quando andamos em bando, fazemos um barulho maior.”

Germana, fale um pouco pra gente sobre os seus projetos.
Eu sou a autora de Lizzie Bordello e as Piratas do espaço, já tenho dois volumes publicados e esse ano vou começar a fazer o terceiro. Sou autora das Empoderadas, do Selo Pagu, um quadrinho de Super-heroínas que vai fechar o arco agora. E todas as histórias da Pagu Comics vão se unir nessa primeira fase, tornando-se um universo compartilhado, e consequentemente minhas histórias vão influenciar a das outras meninas e vice-versa.
Tenho um projeto com Alex Mir, que tem um projeto lindo sobre os Orixás, que vai sair pro fim do ano se der tempo e o café me sustentar, vou fazer Clotilde e Marione, finalmente, que são as minhas velhinhas detetives.

Germana Viana - Instagram
Germana Viana – Instagram

 

Você, como Fã declarada da Marvel, o que tem a dizer a respeito de algumas declarações recentes que dizem sobre a Marvel ter feito uma reunião com alguns lojistas (uma reunião que não acontecia há anos) e apresentado que a diversificação nos quadrinhos não está gerando lucro para a mesma e sim levando à decadência dos quadrinhos. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Houve muito mais manipulação de informação e desinformação pra tentar um retrocesso no material, do que um fato real sobre isso. Esses personagens novos e diversificados estão vendendo sim! E vendendo bem. Trazendo novos leitores, pois eles podem ser representados nessa nova fase.
E esses leitores novos que lêem esses títulos querem uma arte de qualidade? Querem, mas não exigem grandes nomes do mercado nesses títulos, pois a maioria vem de quadrinho alternativo, vem de mangá e compra online porque são maltratados em lojas de caras babacas que vem justamente com esse argumento de que diversividade não vende, porque não respeitam ninguém.

A Thor, a Kamala Khan – Miss Marvel (muçulmana) , O Miles Morales – Homem Aranha ( Negro ), Sam Wilson (Negro) como Capitão América, estão com as vendas super altas e tem um publico muito bom.
O problema na verdade é que os principais nomes, aqueles alicerces da Marvel, estão sofrendo uma negligência como: Capitão América, Homem de Ferro, o Homem-Aranha, X-Men, que não estão com boas equipes criativas e não estão vendendo. Esses lojistas de cabeça pequena generalizam e dizem que não estão vendendo por causa da diversividade que estão tomando o lugar dos clássicos.
Se esses homens mais velhos, esses lojistas, lessem realmente as revistas que vendem, saberiam que a diversidade está lá, mas os antigos também estão e um não tira o do outro. Tem pra todos.

Acontece lá fora e acontece aqui também, que quando nós (mulheres) vamos comprar um quadrinho nas lojas, somos tratadas super mal, logo, foda-se a sua loja, foda-se as suas vendas, eu vou comprar online mesmo.
Essas novas versões estão vendendo sim, e trazendo muitos leitores novos para ler Marvel.

O grande problema são sagas grandes, personagens mal escritos e uma equipe criativa falha.

Eu mesmo nunca tinha lido Miss Marvel e fui atrás justamente pra entender como era uma heroína muçulmana tornando se uma loira toda americanizada.
E não é demais? É do caralho. Ela, a Riri Willians (Homem de Ferro), já viu a Moon Girl?
A menininha que tem um dinossauro… É maravilhoso, uma criança escrita como uma criança, se eu tivesse uma filha eu gostaria que ela lesse aquilo pare ela ver: É uma criança, é uma cientista é uma mulher, é negra, e é uma das mentes mais inteligentes do universo Marvel.

Você que escreve sobre mulheres fortes, sobre mulheres alternativas, em um mercado alternativo. Você acha que o brasileiro está mais preparado para acolher essa diversidade do que o mercado americano, esse emponderamento feminino, justamente por não termos uma indústria ou grandes editoras de super-heróis, e acabamos adentrando ao autoral por ser o que temos de local?
Eu acho que as grandes editoras sempre vão recuperar coisas do alternativo. Falam: ah é de agora, mas não é. X-Men sempre explorou o preconceito, mesmo se tratando de personagens brancos. Sobre o mercado brasileiro é bacana que estamos construindo algo muito legal, o cara que gosta de quadrinho norte americano anda lado a lado com o cara que só lê o underground.

Temos uma galera barulhenta, pequena, mas barulhenta, resistente. Vejo que existe uma fome, e essa fome nos faz consumir o que temos, por isso consumimos muito mais o autoral.

Nós gostamos de sermos representados, de nos vermos estampados nas capas das revistas que lemos.

Qual a Importância do Selo PAGU nesse mercado?
Me perguntaram uma vez: Ah um selo só de mulheres, vocês não segregam?
Pelo Contrario. Em um mundo ideal, a gente não precisaria fazer isso, seria só um grupo de amigas fazendo quadrinhos, como um grupo de amigas.
Mesmo o brasileiro consumindo bastante material underground, ele ainda não aceita a mulher.
Eu estava com uma amiga que estava vestida com uma camiseta de quadrinho, assinando o livro do Jack Kirbi e o cara fala : “Ah você é autora também, achei que era a namorada de alguém.”
Então mesmo nos quadrinhos alternativos ou autoral, tem caras que acham que mulheres não são quadrinistas, quando são.

A internet nos ajudou muito, nos ajudou a nos enxergarmos, agora não andamos sozinhas, andamos em bando e quando andamos em bando, fazemos um barulho maior.

Em um mundo ideal não precisaríamos criar uma iniciativa só de mulheres, mas como não é ideal ainda, a gente anda em bando pra poder transformar no ideal.

 

https://germanaviana.carbonmade.com/